I don't wanna be kept, I don't wanna be caged, I don't wanna be damned, oh hell I don't wanna be broke, I don't wanna be saved, I don't wanna be S.O.L. (Neon Tiger, The Killers)

Tuesday, May 10, 2011

Anfritrius











Severine corria e flutuava entre valerianas e mares de púrpura e dourado que cheiravam a chocolate e violetas e genciana que manchavam seus pés.
Acordei. A madrugada fria no escuro sob meus pés quando me levantei da cama. Caminhei sonambulamente até a cozinha, tudo por um copo de leite morno. Meu estômago doía do sexto café da tarde conturbada de trabalho.
Ao passar pelo banheiro um ruído de alegria noturna me tirou do torpor do sono roxo em que me encontrava. Acendi a luz do cubículo e demorei uns segundos para divisar as sombras borradas das coisas entres os azulejos brancos.

Nami, A Bela, agachada em uma postura brincante abanava a cauda feliz e sorridente. Alejandro, O Mau observava olhando de um lado para o outro entre frustrado e curioso.
Um rato-visitante se encontrava à frente dA Bela. O ser inerte, ainda quente, e ela tentava sem sucesso fazer com que o brinquedo voltasse a funcionar.
Entre impaciente e divertida espantei os brincantes. O fiz, não porque estivesse realmente brava. A Bela me olhava esperando o reconhecimento de seus talentos de anfitriã, que premiei com um afago rápido. Precisava  recolher o rato-corpo em um pequeno plástico branco que depositei na lixeira ao lado da cerca antes de voltar para meu sono de chocolate e mercúrio.   
Descartado o visitante, lavei cuidadosamente as mãos e me dirigi à cozinha. Meu estômago àquela altura necessitaria de dois litros de leite ou um antiácido. Antiácido, sim.

Voltei para a cama pensando em visitas inesperadas, não porque fossem muitas, mas porque talvez tivessem o mesmo destino do brinquedo-rato.
Pela manhã, saio para buscar o jornal. A Bela ao lado da porta me fitava com seus olhos dourados um tanto sonolentos da quentura boa do sol no capacho. Como vencera as telas nas janelas e as portas fechadas era um mistério.

Encaminhei-me para dentro e dei de cara com O Mau. Deitado no sofá, ronronava inocente enquanto brincava com as franjas da cortina.

Ao me desfazer do lixo do dia anterior. Olhei mais uma vez o saquinho contendo os restos do nosso hóspede da noite anterior. Me surpreendi com o meu sarcófago de prêmios felinos vazio. Revistei-o brevemente à procura de furos ou rasgos. Talvez um outro gato, ou o cão do vizinho. Nada.

O plástico parecia ainda mais branco e reluzente. Porém nada havia nele. O pequeno cadáver visitante havia desaparecido.

A Bela, agora ao meu lado, me fitava imperturbável com seu olhar cor de ouro velho.

Como soubesse tudo desde o início dos tempos. Lambia lentamente a pata direita. Cruelmente serena, voltou-se para a casa e pôs-se a marchar em direção à porta. No meio do trajeto, voltou-se para olhar para mim, numa interrogação firme porém suave. Por via das dúvidas, achei melhor obedecer!

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